20/02/2015

VAI E VEM

Não foi só beliscão. A troika fez feridas que ainda sangram

No momento em que o ministro alemão das finanças exibe Maria Luís Albuquerque para em nome de Portugal receber o elogio da boca do seu mestre e patrão, dando-lhe a honra de discursar a seu lado para fazer o discurso elogioso da austeridade que “salvou” Portugal, eis que o presidente da Comissão Europeia, Claude Juncker, veio estragar a festa, denunciando preto no branco que, afinal, “a troika pecou contra a dignidade” de portugueses, gregos e também irlandeses” e que é preciso rever o modelo e não repetir os mesmos erros.

Junker, num exercício de auto-contrição admitiu mesmo que a sua afirmação pode parecer “estúpida” dita por ele,  ex-presidente do Eurogrupo. E acrescentou que “falta à troika legitimidade democrática e que “temos de aprender as nossas lições do passado e não repetir os mesmos erros”.

Como se esperava, o governo português tomou o partido do ministro alemão, com oministro da presidência a fazer-se de ofendido, a dizer que as declarações  do presidente da Comissão Europeia são “infelizes”, garantindo que a dignidade de Portugal “nunca foi beliscada” pela ‘troika’.

Qual é afinal o conceito de “dignidade” do ministro Marques Guedes? Um país  que voltou aos níveis de pobreza de há dez anos, em que uma em cada cinco pessoas é pobre, em que 25,7% da população vive em privação material em virtude das políticas de austeridade impostas pela troika, não viu a sua dignidade atingida?

A troika não beliscou, feriu a dignidade do país e dos portugueses. E as feridas ainda sangram.

Vem a propósito recordar o que sobre a troika em Portugal escrevi em  Setembro de 2013:

É confrangedora a imagem de servilismo e subserviência demonstrada pelas autoridades portuguesas perante os funcionários da troika que se deslocam a Portugal para as chamadas “avaliações” do cumprimento do programa de resgate.

Ver ministros, deputados (da maioria) falando com todas as cautelas, com medo (é essa a palavra) de criticarem a troika, criticando quem se atreve a contrariar os ditames dos “avaliadores” é humilhante para qualquer português.

Perante tal servilismo os funcionários da troika  aproveitam para se fazerem “caros” e nem se dignam responder aos seus interlocutores, segundo as declarações das diversas delegações.

 Mal imaginava na altura que Junker, então presidente do Eurogrupo viria reconhecer o que já então saltava à vista. Mas mais vale tarde que nunca.

Foi um triste gozo, recordar também o que escrevi aqui e aqui.

 

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