12/01/2016

Cristo não vota em Marcelo

8/1/16

Artur Pereira
Cristo não vota em Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa é um homem de direita, apoiado pelo PSD e pelo CDS na sua candidatura. Artista do disfarce, mestre da dissimulação, especialista em intrigas.

Proponho três desafios aos leitores. Primeiro: conseguem recordar alguma ideia – já não digo uma grande ideia, uma enfezada que seja – do professor Marcelo para o país? Não conseguem? Não desesperem, não é por falta de atenção vossa, é que não existe mesmo.

Segundo desafio: conseguem recordar quantas mentiras, maquiavelismos e afirmações irresponsáveis com repercussões graves na vida das pessoas, nomeadamente as que fez sobre a solidez do BES e da banca em geral, saindo sempre incólume e com a reputação de esperto? Se disse muitas, acertou.

Último: quantas vezes ouviram Marcelo encorpar a sua voz privilegiada em defesa dos mais fracos contra os salários de miséria, contra as políticas sociais injustas, contra a corrupção? Não recorda?

E em defesa dos donos disto tudo? Dos poderosos, da casta com quem veraneia em iate pelo Mediterrâneo ou se instala na chácara dos Brasis? Mais do que seria de esperar de um comentador isento? Acertou de novo.

Por estas, mas também por outras, é que nem que Cristo desça à terra eu votaria Marcelo. Sou de esquerda sem culpas ideológicas ou complexos existenciais, e se, durante as décadas em que observo alguém que foi chefe de partido de direita discursar nos congressos da direita, falar em defesa dos valores sociais e económicos de direita, eu não visse um candidato da direita, então o melhor era dedicar-me a outra atividade.

Marcelo é, sem dúvida, o político que teve o exclusivo privilégio de durante mais de 15 anos ter sido poupado a ser contraditado numa afirmação por si realizada. Viveu na impunidade e, talvez por isso, hoje apareça tão surpreendentemente vulnerável nos debates.

Uma constante tem acompanhado o percurso político do professor: a mentira. Num estilo manholas, com aquele jeito de quem pode não saber o que diz, mas mesmo assim vai explicar, e com a estudada pose de leviana atitude de um génio rebelde para quem a verdade é um pormenor, no fim fica sempre em pé.

Mentiu na criação de um passado oposicionista que, de tão ridículo, foi de imediato desmentido, com exceção das cartinhas a Salazar e a Caetano, mentiu na vichyssoise, mentiu na importância da sua contribuição para a redação dos primeiros estatutos do PSD, mentiu quando disse que já não era candidato, mente quando é confrontado com a insanável contradição das afirmações que faz, dependendo da hora e do local onde se encontra – enfim, todo um estilo.

A verdade nunca interessou a Marcelo, o que vale é o que Marcelo diz. Até porque a verdade necessita da explicação do professor para o povo entender e só após ser moldada pelo inteligente é que está disponível para ser servida ao jantar. Nessa altura, já é a verdade do Marcelo.

Todas as conversas semanais tinham um único objetivo: ir moldando a opinião pública e gerir influência na comunidade política de forma a criar um presidenciável natural e óbvio.

O que Marcelo fez durante estes anos foi propaganda e compor um boneco. Marcelo é o criador de uma só obra: Marcelo, o candidato.

Marcelo é o candidato das televisões. Ele é o candidato dos telespectadores e vai ser votado por muitos, com a mesma lógica com que votam nos concorrentes do Big Brother ou The Voice.

Marcelo espera que Cavaco tenha degradado de tal forma a função de Presidente da República que para a opinião pública e os eleitores seja indiferente o padrão de exigência ética e política de quem venha a substituí-lo.

O mito da inteligência, porquê? Genética? Experiência, que cargo político público exerceu antes? Qual foi a teoria ou pensamento político que desenvolveu? Que contribuição pública ou intervenção social, que trabalho artístico ou científico relevante a sua inteligência sobredotada produziu? Vai nu.

Ser inteligente na construção de uma imagem não é o mesmo que ser inteligente.

No quotidiano popular, no botequim ou no mercado de legumes, na fila para o autocarro ou nas esperas do centro de saúde, dizer que "estás armado em Marcelo" é sinónimo de salta-pocinhas, manhoso e intriguista. Ninguém se lembra de qualificar alguém de inteligente afirmando "ora aí está um tipo como o Marcelo Rebelo de Sousa".

Existe uma moléstia designada na farmacopeia como "doença infantil do marcelismo" que se manifesta numa esquerda crocante provocando-lhe o torpor mental e que, no desencadear do processo de aparvalhamento, a leva a declarar que gostava de ver o professor eleito com os votos da esquerda, especialmente quando o glamoroso professor faz juras de lealdade política que lhes toca fundo o sofrido coração.

Pois bem, aqui vai remédio do próprio Marcelo administrado em 2008, na formação de mancebos da agremiação laranja: "Os meus comentários são sempre tendencialmente favoráveis ao PSD mesmo quando não parecem." Se mesmo assim persistirem na alucinação, das duas uma: ou por coisita aqui ou por coisita acolá, foram deslizando até ir parar àquela zona onde a depressão e a desilusão dão as mãos para os aconchegar em posição fetal, ou a idiotice até aí latente manifestou uma inquietante propensão genética. Em qualquer caso, recomendo psiquiatra.

Marcelo Rebelo de Sousa é um homem de direita, apoiado pelo PSD e pelo CDS na sua candidatura. Artista do disfarce, mestre da dissimulação, especialista em intrigas. À esquerda, só um imbecil pode pensar votar no professor. Estou certo de que Cristo, esse, não vota de certeza em Marcelo.

Consultor de comunicação. Escreve às quintas-feiras

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